meu casaco rossoPosted by vita evangelista Mon, March 08, 2010 18:51:36Não havia lido Caio Fernando Abreu tanto quanto deveria há sete meses, quando decidi incluir na insegura lista de cinco livros que eu levaria em minha companhia àquela que seria minha primeira de muitas idas à Suécia, Os Dragões Não Conhecem o Paraíso, seu despretensioso livrinho de contos. Relutei em começar a devorá-lo, no descobrimento eterno da vasta literatura de Hilda Hilst. A introdução de Caio F. acabou por ter-se emplacado tão intensamente em minha vida em um momento morto, sofrido, as carências todas à tona, ou naquele que posso chamar de um momento mais que vivo. Houve conforto, houve emoção, amor à primeira vista. Identificação. A cada página eu me tornava um pouco mais Caíto.
Após três meses de Estocolmo, tanto summertime, frutas vermelhas, inaptidões, saudades e algum frio interno e externo, a volta ao Brasil foi de retorno literal às origens. Rio de Janeiro, Minas Gerais e, finalmente, Bahia. A Bahia não se resume à intensa Salvador. Tão pouco é Morro de São Paulo a única ilha paradisíaca do Atlântico. Mas entre sóis, transparências de águas azuis, o encontro com todos-os-santos, frutas, refrescâncias, protótipos ambulantes de belezas nacionais e internacionais e muita inspiração, encontro um livro todo cor-de-rosa com aquelas mãos longelíneas em branco e preto cobrindo o rosto da capa. Era Caio Fernando Abreu. Folheio. Custa os 74 reais da minha rala e derradeira leva de dinheiro. Não me atenho e trago pra casa esse livro que não posso considerar como uma simples biografia.
Escrito pelas experientes mãos de Paula Dip, jornalista e grande amiga de Caio, Para Sempre Teu, Caio F. é na verdade uma coletânia de cartas e depoimentos do Caio sobre amigos, para amigos, e de amigos sobre o Caio, que aparecem deliciosamente a fim de traçarem de forma sincera e íntima a trajetória desse que faz parte do populoso grupo de escritores brasileiros da pós-modernidade. E foi ali que pude descobrir que o mesmo Caio que eu chamava de meu, era o Caio que nos anos 70 fugiu do Brasil infernal rumo à sua sempre almejada Europa, passando por Barcelona, Madri e Paris para, antes de sua amada e odiada Londres, finalmente chegar àquela que havia escolhido como a primeira cidade européia que consideraria sua home-sweet-home: Estocolmo.
Não costumava me ater ao pragmatismo duvidoso das coincidências da vida, mas apesar de, tenho me convencido de que de uns tempos pra cá, essas parecem ter impressionantemente decidido se agrupar sobre a minha história. Superstição, inocência ou vaidade. Fatalmente uma das anteriores. Ou não, vai saber.
De qualquer forma, Dragão entre tantos outros que sou, foi em Morro de São Paulo, rodeada por lembranças, pai, irmão, Caio e esperanças, onde pude me sentir no Paraíso. E continuo desejando poder me deliciar com doses cada vez mais fortes de Caíto.
meu casaco rossoPosted by vita evangelista Fri, October 16, 2009 13:33:17Só me satisfaço se sofro.
Me qualifico quando convenho.
Solidifico se me convenço.
Eu me esclareço só se liquefaço.
meu casaco rossoPosted by vita evangelista Sat, September 19, 2009 03:52:10é ver amor no abominável.
meu casaco rossoPosted by vita evangelista Sat, September 12, 2009 02:57:15Existe uma luz factícia sobre um homem mirrado e à sua sombra, a mulher colossal. Amarelos. As rudes proeminências entre as pernas suspeitosamente femininas são detalhes dispensáveis. Lê os abundantes trechos literários nessa língua absurda. Essa língua é seca. Ele acredita em si mesmo e me convenço. Eu me convenço. Eu me convenço. Eu me convenço. Recomeçam taciturnos a música nauseabunda, bateria que corre e me desentope sem que eu vomite por eles, gritam por mim e me corrompo, adolesço. Liquefaço a tinta dessa caneta e enrijeço com ela, no branco aceso do papel. A tinta sou eu. Fala com a sua garganta. Grita, que transcrevo, que coluro, eu me deito. A sua garganta é o meu leito. Eu amo a sua garganta. O rubor molhado das suas entradas. Sem seu escarro eu sou o nada. Me atura e me molho. Me aceita. Eu sou ela. Eu sou ele. Ou sou menos.
meu casaco rossoPosted by vita evangelista Fri, September 11, 2009 21:00:58Funda a sua palavra
VIVA!
Palavra idealizada
PREMATURA
A sonoridade extraordinária da sua
PALAVRA
É agulha que me
PERFURA
Infecto
INAMOVÍVEL
Me cruza o corpo
IRRECONHECÍVEL
Coagula essas células
RESSEQUIDAS
Garganta acima, abaixo
GARGANTA ADENTRO
Irrealizável expelir a sua palavra
INDIGERÍVEL
.
Engole a sua palavra
EU PROCLAMO
Estupra a tua língua
EU EXCLAMO
Invade o teu de dentro
EU IMPLORO
Machuca a tua alma
EU SUPLICO
.
Ajuda!
O indizível substancial que se
Torna (entorna) transforma
Nisso que é agora
Você dentro de mim
meu casaco rossoPosted by vita evangelista Sat, August 29, 2009 01:14:42sem salto alto nos olhos, sem maquiagem nos pés, 30 reais no bolso, táxi, samba, cachaça, cerveja barata, chuva gostosa no calor, banho nu salgado de mar e madrugada gemendo plena, ver puta, rico, viado, santo, safado e ladrão, cristo redentor braçosabertossobreaguanabara, tudo juntomisturado, ê, laiá. se eu pudesse e o meu dinheiro desse.
meu casaco rossoPosted by vita evangelista Sun, August 09, 2009 15:40:45Eu me desfolho inteira em líquidos densos de dentro do meu corpo, transbordo limítrofe, escorrendo pelos vincos vagos desse chão, molhando escadas, madeiras, carpetes, poeira acumulada. me misturo, esparramada. Eu amo e estremeço e ardo e adoeço. Te sugo um olhar vadio que se arrisca por tudo o que se possa haver e um mais, curiosidade infantilizada de um ímpeto cigano em pele branca, urbano berço de riquezas e possibilidades. Descarnada, despida, me disponho. Tou sua, sou tua. Te libero limites, aviões, navios, tubarões, mar aberto, para que você os dilua em seus poros claros e delicados, pingando morno em minha face o sal que você guarda nesse oceano inteiro que existe dentro de você, gotas intoxicadas que não te servem mais de nada. E me delicio, umedecida, estridente grito de estrela, seus olhos claros de lobo, tua mão pianista invadindo audaciosamente cada um dos meus milímetros notáveis, explodindo alto as sinfonias das mais divinas, diluindo manso as dores espasmódicas em litros inumeráveis de sacra quietação celestial. Eu guardo intangíveis como em cara película queimada os sons e gestos do seu corpo, que você distraidamente jorra sem perceber. E me entrego animal, me submeto, sucumbo, numa insaciedade de você que não me reconheço.
você me desalicerça e nem sabe.
meu casaco rossoPosted by vita evangelista Sun, August 09, 2009 15:15:48As cenouras, finas, coloridas e elegantes, crescendo debaixo da espessa camada de terra, águas, sais e vida absolutos, emergem sadias; Até as cenouras, nascidas em confortável berço de ouro, esquentando morno enquanto aqui fora congela, capacidade tão efetiva de berço de ouro quanto a de manter fresquinho seu bebê cenoura, quando é aqui fora onde tudo queima. Para que cresçam soberanas, finquem raízes suculentas, pulsando vitamina pura. Até as cenouras, até essas, criadas e desenvolvidas com todo o empenho solícito em procura de seu bem próprio - segurança diligente - acabam diluídas entre os excrementos da merda de alguém.